Ao demitir apresentador racista, Record mata monstro que alimentou imprimir publicado em: 20 / 01 / 2017

marcos de moraes


Marcos de Moraes, o Marcão Chumbo Grosso, no dia em que ofendeu a cantora Ludmilla

A Record tomou uma medida drástica após ver um de seus apresentadores acusado de racismo por ter chamado a cantora Ludmilla de “macaca”. Na quarta-feira (18), anunciou a demissão de Marcos de Moraes, o Marcão Chumbo Grosso, apresentador do Balanço Geral de Brasília desde setembro do ano passado. Em nota oficial, disse que “repudia qualquer ato dessa natureza” e que a “conduta” do profissional “não está” em acordo com sua “linha editorial”.

Numa visão muito superficial, a Record parece ter agido correta e rigorosamente. Mas não foi assim. Primeiro, a emissora vacilou para anunciar a demissão. Marcão Chumbo Grosso disse que Ludmilla era uma “macaca” no quadro Hora da Venenosa do dia 9 de janeiro. A demissão, portanto, chegou com quase dez dias de atraso, porque a história cresceu, repercutiu. E, na quarta-feira, horas antes de optar pela demissão, a emissora tomou uma medida mais branda, a da suspensão do apresentador.

A ação da emissora lembra a da direção do zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos, que em abril do ano passado se viu obrigada a matar a tiros um gorila que ameaçava a vida de um menino de quatro anos que caira na área em que o animal era mantido em cativeiro. A Record matou um monstro que ela mesma alimentava.

A rede do bispo Edir Macedo, a bem da verdade, não inventou Marcão Chumbo Grosso. Ele ganhou fama numa afiliada da Band. Mas foi contratado pela Record, no ano passado, para continuar sendo o mesmo apresentador sensacionalista e tosco que era antes, porque assim daria ibope. Nenhum executivo da emissora falou para Chumbo Grosso virar um lorde.

Marcão do Povo, como a Record tentou rebatizá-lo, era uma aposta. Nos bastidores, sua promoção para algum telejornal de São Paulo era vista como uma questão de tempo.

Parece hipocrisia a Record afirmar em nota oficial que a conduta de Marcos de Moraes não combina com sua linha editorial. Não que a Record defenda agressões racistas, mas os mais altos valores jornalísticos não são exatamente a praia da emissora.

Basta lembrar, por exemplo, da reportagem-quase-entrevista com o ET Bilu, exibida pelo Domingo Espetacular em 2010. Ou da visibilidade que deu, em 2012, à Grávida de Taubaté, como ficou conhecida a mulher que enganou a imprensa dizendo que esperava quadrigêmeos.

O Balanço Geral, com suas inúmeras edições regionais, é um berçário de Marcões Chumbo Grosso. Na Bahia, o apresentador atende pela alcunha de Bocão. No Rio Grande do Sul, o titular da franquia que mistura crime e fofoca já exibiu imagens de um tiroteio no Oriente Médio como se fossem de Porto Alegre e já fingiu estar chorando a morte de um suposto bandido justamente para comemorá-la.

Não é necessária nenhuma viagem no tempo para se encontrar exemplos inspiradores para Marcos de Moraes. Nesta semana, o “venenoso” da afiliada da Record em Maceió disse que o programa de Eliana só tem três telespectadores, de tão humilhado que é pelo show de Rodrigo Faro. Não bastasse a mentira, ainda fez caretas, esticando a pele do rosto, zombando das supostas aplicações de botox da apresentadora do SBT.

Na mesma semana em que Marcão ofendeu Ludmilla, outra polêmica envolvendo a Record ocupou o noticiário. Em um editorial ruralista, Fabélia Oliveira, do Sucesso no Campo, programa da Record de Goiás, expôs uma opinião “chocante”, como ela mesma admitiu: “Se o índio quer preservar a cultura, ele não pode ter acesso à tecnologia que nós temos. Ele não pode comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos. Porque há um controle populacional natural. Ele vai ter que morrer de malária, de tétano… do parto”.

Marcão Chumbo Grosso, portanto, fazia parte de um ecossistema em que inventar, exagerar, acusar, difamar e falar o que dá na telha é algo natural e estimulado com bons salários.


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