Blogueiro levado para depor diz ter sofrido “vingança” de Moro imprimir publicado em: 21 / 03 / 2017

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O blogueiro Eduardo Guimarães, do “Blog da Cidadania”, deixa a PF em SP depois de ser ouvido por conta de um mandado de condução coercitiva expedido pelo juiz Sergio Moro

“Que perigo posso oferecer para a Justiça para ser levado da minha casa, às seis da manhã, por quatro policiais federais armados que revistaram minhas coisas mesmo eu sendo testemunha, e não investigado? Me senti um bandido, e em uma situação absolutamente sem justificativa.”

O desabafo é do blogueiro Eduardo Guimarães, 57, autor do “Blog da Cidadania”. Ele foi levado coercitivamente para depor na Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, nesta terça-feira (21), em mandado expedido pelo juiz da 13ª Vara Federal do Paraná, Sergio Moro. A ação transcorreu pelo inquérito que apura o suposto vazamento de informações da 24ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2016.

Moro ainda determinou que os policiais federais realizassem tanto a busca e a apreensão de aparelhos eletrônicos do blogueiro –entre os quais, celulares e laptop –, como o “o exame e a extração de cópias de mensagens eletrônicas armazenadas nos endereços eletrônicos utilizados pelo investigado”.

Guimarães falou ao UOL horas depois de ter sido liberado. Levado de seu apartamento no Paraíso (zona sul de SP) pouco depois das 6h, ele deixou a PF por volta do meio-dia –mas se queixou que seu advogado, Fernando Hideo, não acompanhou a maior parte do depoimento, já que o blogueiro estava sem o telefone.

Crítico da Operação Lava Jato e do juiz Sergio Moro, a quem já chamou de “psicopata” no Twitter, Guimarães antecipou em fevereiro do ano passado informações sobre a posterior condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que iria depor um mês depois. Em 2015, porém, o blogueiro protocolara no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) representação contra o juiz com questionamentos à prisão temporária de Marice Corrêa Lima, cunhada do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

Agora, ele afirma que o magistrado teria agido contra ele “por vingança”.

blog

 “Não fui agredido, nem maltratado pelos policiais que me conduziram e que levaram as minhas coisas. Eles estavam no exercício da função deles. Minha queixa é que o juiz Moro está usando o Estado brasileiro para vendetas, vinganças. Fui alvo de uma vendeta por tê-lo representado ao CNJ em 2015 –porque considero que, quando vira ‘estrela’, o indivíduo deixa de ser juiz”, afirmou o blogueiro. “O magistrado questionou um tuíte meu [em que Guimarães, chamando o juiz de “psicopata”, se dirigia aos leitores observando que os “delírios” do juiz “vão custar seu emprego, sua vida”]. Ou seja: temos uma questão pessoal um com o outro.”

No depoimento, o blogueiro, que concorreu à Câmara de Vereadores de São Paulo pelo PCdoB, em 2016, na chapa de Fernando Haddad (PT), afirmou ter sido questionado sobre a pessoa que passou a ale, no ano passado, as informações sobre Lula. Para Guimarães, essa teria sido uma tentativa de violação do sigilo da fonte –ele alega que, mesmo blogueiro, desempenha atividades jornalísticas.

“Queriam saber se eu conheço a fonte, que eles conhecem, qual a relação que eu mantinha com essa pessoa, quanto eu ganho e qual minha fonte de renda. Tenho uma vida modesta, um carro com dez anos de uso, mas queriam saber se eu havia avisado Lula sobre informações que eu mesmo publiquei –se quisesse beneficiá-lo e obstruir a Justiça, simplesmente não teria dado publicidade a essas informações”, afirmou.

“Tenho uma filha de 18 anos e que pesa 26kg, demanda cuidados médicos permanentes; minha mulher entrou em desespero de ver aqueles policiais armados dentro de casa, vasculhando tudo. Nunca recebi um centavo e dinheiro público de ninguém”, afirmou. E acrescentou: “Hoje, me sito um blogueiro ‘castrado’ sem meu equipamento de trabalho”.
“Não é suficiente ter um blog” para ser jornalista, diz assessoria de Moro

O UOL procurou a assessoria de imprensa do juiz Sergio Moro sobre as críticas e acusações feitas pelo blogueiro. Por meio de nota, a assessoria citou que Guimarães “é um dos alvos de investigação de quebra de sigilo de investigação criminal no âmbito da Operação Lava Jato, ocorrida antes mesmo de buscas e apreensões” e explicou que a ação desta terça-feira se deu para apurar “a conduta de agente público e das pessoas que supostamente teriam divulgado informações sigilosas e que poderiam ter colocado investigações em risco”.

“Pelas informações disponíveis, o Blog da Cidadania é veículo de propaganda política, ilustrado pela informação em destaque de que o titular seria candidato a vereador pelo PCdoB pela a cidade de São Paulo. Juntos aos cadastros disponíveis, como ao TSE, o próprio investigado se autoqualifica como comerciante e não como jornalista”, diz a nota.

A assessoria pontuou ainda que o blogueiro, mesmo com decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) desobrigando que o jornalista tenha de ter diploma, “não é jornalista”, e defendeu que o blog do qual ele é autor “destina-se apenas a permitir o exercício de sua própria liberdade de expressão e a veicular propaganda político partidária.”

“Não é necessário diploma para ser jornalista, mas também não é suficiente ter um blog para sê-lo. A proteção constitucional ao sigilo de fonte protege apenas quem exerce a profissão de jornalista, com ou sem diploma. A investigação, por ora, segue em sigilo, a fim de melhor elucidar os fatos”, encerra a nota.

Dilma e deputados petistas se manifestam

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 A ex-presidente Dilma Rousseff cujo impeachment foi rechaçado por Guimarães, no blog e em suas redes sociais e deputados petistas em Brasília e em São Paulo se solidarizam com o blogueiro.
 
Em nota, a bancada do PT na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) classificou a ação da PF como “autoritária” e “censura”. “A bancada dos deputados estaduais na Assembleia Legislativa se junta ao elo de protestos e indignação ao atentado à democracia e a liberdade de imprensa que atingiu o blogueiro Eduardo Guimarães, editor do Blog da Cidadania, levado coercitivamente à Superintendência da Polícia Federal de São Paulo, nesta terça- feira, às 6h da manhã”.

“Aos moldes dos tempos sombrios da ditadura militar, o blogueiro está incomunicável, sem acesso a advogados e direito de defesa, sob a acusação de supostos vazamentos sobre a condução coercitiva do ex- presidente Lula, em março do ano passado”, diz a nota.

Em entrevista coletiva em Brasília, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Carlos Zarattini, afirmou que a decisão de Moro, sobre o blogueiro, foi “uma atitude arbitrária”.

“Quando os grandes órgãos de notícia vazam notícias que geralmente são contra Lula e contra o PT, não tem problema nenhum. Mas quando um blogueiro que tem informações, vaza essas informações para que o público em geral tenha conhecimento da arbitrariedade das ações da Polícia Federal, o que acontece? Ele é preso. Então, não existe respeito ao direito de imprensa. É um verdadeiro absurdo o que aconteceu hoje”, classificou.

Em sua página no Facebook, Dilma disse ter recebido a notícia da condução coercitiva de Guimarães “com apreensão”. “A ele foi pedido que revelasse suas fontes. O episódio é grave. Ameaça a liberdade de imprensa e de expressão, garantidas pela Constituição. Sou solidária a Eduardo porque sei como é duro ter de se explicar por pensar e escrever”, postou.

uol.com


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