Carioca troca Londres por Berlim e faz sucesso no burlesque imprimir publicado em: 07 / 06 / 2018

xxxJana Mello gosta de se comparar à fênix, a ave mitológica que renasce das próprias cinzas. A carioca, de 34 anos, usa seus dramas particulares como combustível para a arte. Em sua estreia no mundo burlesco, em dezembro, recorreu ao seu HD interno para montar o show “The Phoenix Rising”, apresentado no clube Toast Hawaii, em Berlim. Era a história de sua vida narrada de uma forma “forte, sexy e hipnotizante”. A plateia ficou atônita.

— Foi muito visceral. Existia verdade ali. Minha trajetória não foi fácil, passei por muitos traumas, como o assassinato do meu grande amor. Mas sou grata ao universo, pois isso me deu sabedoria e coragem para ser quem eu sou — conta Jana, que estudou na Berlin Burlesque Academy.

No espetáculo de estreia, que também foi sua formatura, a artista burlesca assumiu a persona de Lilith D’Lust. O primeiro nome vem da teoria de que Adão teve outra mulher antes de Eva, Lilith.

— Mas ela não aceitou ser subordinada e submissa a ele, então se rebelou e deixou o Jardim do Éden. Minha personagem não pertence a esta dimensão. É um sonho, fantasia, surrealismo. É uma deusa — explica a carioca, destacando que seu trabalho não segue a linha de Dita Von Teese, referência no segmento. — Dita é a nossa rainha master, mas faço algo único, com uma pegada vintage, futurista, glam, punk e espiritual. Minha musa inspiradora, de fato, é Grace Jones. Admiro quem traz algo totalmente novo, inesperado, questiona valores e contribui para a evolução da sociedade. É isso que busco atingir com minha arte.

carioca peladaA ideia de virar burlesca surgiu enquanto Jana era performer fetichista na casa noturna Cirque le Soir, em Londres, onde também atuava como stylist — ela chegou trabalhar com Rihanna e produzir fotos para a revista “i-D”:

— Por meio de um amigo brasileiro (o diretor criativo Leo Belicha), descobri meu lado performer e minha paixão pelo palco na capital inglesa, em 2012. Enriqueci culturalmente e expandi a criatividade; a cidade, porém, cansa. Era too much e estressante para mim. Não era meu lugar. E eu não conseguia ter conforto financeiro sendo underground. Queria dar um passo além e enxerguei no universo burlesco a oportunidade. É uma carreira mais sólida, bem remunerada e com perspectiva de futuro. Há dois anos, me mudei para Berlim com a cara e a coragem, para me desenvolver na profissão.

E pensar que Jana, nascida e criada em Santa Teresa (ela trocou o bairro pelo Leme aos 11), pretendia ser advogada.

— Larguei a faculdade de Direito no sexto período e fui cursar Moda (primeiro, na Cândido Mendes; depois, fez uma pós-graduação na Central Saint Martins, em Londres). Meus pais nunca me “mimaram” financeiramente, porém me deram a melhor educação possível — diz ela, filha do mestre de capoeira Gil Velho, do Grupo Senzala, e de Fátima Mello, historiadora que sempre lutou pelos direitos humanos. — Minha família é politizada, estive, por exemplo, em muitas passeatas do PT com mamãe. Eles não entendem bem o que é ser burlesca, não têm noção da grandiosidade da cena. No entanto, apoiam a minha arte.

Solteira (“Mas não sozinha”, diverte-se), a carioca quer ter total liberdade no momento. Coisa, aliás, que encontrou em Berlim:

— Aqui, ninguém a julga. Você pode até sair pelado se desejar.

Ligada no 220v, Jana ainda é anfitriã da Pornceptual, uma festa que, segundo ela, usa o erotismo como arma para abrir as mentes das pessoas.

— O evento mostra que a pornografia pode ser artística, respeitável e inclusiva.

Agora, a moça anda às voltas com seu próximo show, marcado para o dia 20 de outubro, no Berlin Burlesque Festival. Será épico.

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