Entenda por que o Bitcoin ‘desperdiça’ energia elétrica imprimir publicado em: 23 / 08 / 2017

BitcoinCom a popularização das “criptomoedas” como o Bitcoin, um problema inerente ao funcionamento da chamada “blockchain” tradicional vem se agravando: o enorme desperdício de energia elétrica envolvido na operação dessas moedas. É difícil chegar a estimativas precisas, mas é possível que o Bitcoin, sozinho, gere custos na ordem de R$ 1 milhão por dia com energia elétrica — isso sem contar todo o custo envolvido na fabricação dos chips especiais de mineração, os chamados circuitos integrados de aplicação especifica (ASICs, na sigla em inglês).

O Bitcoin Energy Consumption Index (BECI) estima o consumo anual total de energia do Bitcoin em 16 TWh (terawatt-hora). Isso equivale a 3,5% de toda a energia consumida anualmente no Brasil (460 TWh, segundo a Empresa de Pesquisa Energética) ou até três vezes o consumo de energia pelo mesmo período do Paraguai.

O problema reside no conceito de “mineração” dessas moedas. A “mineração” é o processo pelo qual a rede da moeda virtual – que é descentralizada – registra suas transações. Como o Bitcoin não tem um dono ou uma limitação nos participantes da rede (como existe no sistema bancário, por exemplo, onde só instituições credenciadas podem atuar), a “mineração” se vale de um mecanismo de segurança para controlar os intervalos de tempo em que novas transações são registradas, impedindo que alguém simplesmente assuma o controle da rede.

Esse mecanismo de segurança é chamado de “prova de trabalho” (proof of work). O “trabalho” é um processamento envolvendo cálculos difíceis, porém sem relação direta com nenhum problema real ou mesmo com as necessidades da rede. O trabalho de “mineração” não fica mais complicado quando há mais transações entre usuários para serem registradas — a dificuldade do cálculo é artificial e, portanto, um desperdício.

Mineração é loteria
O sistema de “prova de trabalho” não se assemelha em quase nada com a “mineração” da vida real, onde uma mina é explorada por metais preciosos.  A única equivalência é que o minerador recebe moedas em troca do seu trabalho. Mas não é o trabalho em si que “gera” ou “encontra” essas moedas, como no caso de uma mina de verdade.

Para “receber as moedas”, um sistema minerador de Bitcoin precisa, por meio de tentativa e erro, encontrar um valor numérico que atenda a um critério definido pela rede. Cada tentativa exige um processamento. Esse “desafio” – o número a ser encontrado – fica mais difícil quanto mais mineradores participarem do processo.

É mais ou menos como uma loteria em que o número de acertos necessário depende do número total de apostas: se o número de apostadores aumenta, fica mais difícil ganhar qualquer coisa.

E é essa corrida para aumentar o número de apostas que desperdiça energia. Cada minerador ou grupo de mineradores tenta aumentar a capacidade do seu sistema de “apostar”, o que por si dificulta mais a “loteria”. Quanto mais complexa for a loteria, mais cálculos são necessários e maior o consumo de energia.

Para aumentar a eficiência energética do trabalho de mineração, empresas especializadas desenvolveram chips voltados aos cálculos exigidos pelo Bitcoin, os ASICs. O problema é que, conforme esses chips são adotados por todos os mineradores, a corrida continua como estava — e o consumo de energia também. Toda a cadeia que desenvolve, fabrica e opera esses ASICs atua em um problema artificial.

Para piorar a situação, a rede do Bitcoin, especificamente, tem um limite teórico de sete transações por segundo. Por mais mineradores que a rede tenha, ela não vai processar mais transações que isso (diferente, por exemplo, de um banco tradicional, que pode aumentar sua capacidade para processar mais transações; o Bitcoin Cash, criado no início de agosto, em parte resolve esse problema). Logo, enquanto o consumo de energia aumenta, o serviço prestado à rede e à sociedade pelos mineradores permanece limitado.

Para piorar, a rede é capaz de funcionar com um único minerador. Todos os demais são redundantes, pelo menos em termos operacionais.

Por que tudo isso?
Caso houvesse um único minerador na rede do Bitcoin, no entanto, esse minerador teria o poder de controlar a rede. Da maneira que o Bitcoin foi projetado, o grande número de mineradores aumenta a segurança da rede, pois é mais difícil que um indivíduo ou um grupo obtenha poder de processamento suficiente para monopolizar as decisões sobre as transações.

Manter a rede descentralizada e livre, portanto, é o único fator positivo de tanto trabalho sem finalidade própria.

Quem paga?
Como as moedas ganhas no processo de mineração valem hoje milhões de dólares, vale a pena pagar pela energia.  Apesar disso, já foram registrados casos de “gatos” de energia na China. Segundo o site “Cryptocoinnews”, autoridades chinesas realizaram ao menos 12 operações contra roubo de energia para fins de mineração de Bitcoin e mais de mil máquinas de mineração foram apreendidas em 2016.

Por causa desses e outros problemas, ao menos duas criptomoedas buscam uma alternativa à lógica da “prova de trabalho”.

Os desenvolvedores da Ethereum, principal “concorrente” do Bitcoin — se é que é possível falar em “concorrência” nesse ramo –, planejam alterar o processo de mineração para utilizar um sistema de “prova de participação” (proof of stake). Nesse sistema, um “minerador”, em vez de adquirir hardware de mineração para “demonstrar trabalho”, adquire moedas e as coloca em um fundo. É como se o minerador se tornasse um “acionista da criptomoeda”.

Como “acionista”, o interessado terá poder de voto nas decisões dos blocos e transações, garantindo que a rede permaneça descentralizada e livre, sem exigir máquinas trabalhando vinte e quatro horas por dia para resolver cálculos.

Um sistema parecido já é utilizado pela PeerCoin, uma moeda menos conhecida e que destaca seu objetivo de ser “sustentável”.

De fato, as criptomoedas tal como existem hoje são incompatíveis com um mundo que cada vez mais presa pela sustentabilidade e consumo consciente de matéria-prima e energia. O Bitcoin, como a criptomoeda mais tradicional e valiosa, deve seguir o exemplo do Ethereum e pensar em um modelo mais sustentável para o seu futuro.


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