Segunda, 09 de dezembro de 2019
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24/05/2019 às 18h20

Redação

Teresina / PI

Filme gera polêmica em Cannes por sexo oral e é acusado de sexismo
Em "Mektoub, My Love: Intermezzo", na disputa pela Palma de Ouro, o diretor mostrou uma longa cena, de aproximadamente 15 minutos, em que um homem faz sexo oral em uma mulher, em um banheiro de boate.
Filme gera polêmica em Cannes por sexo oral e é acusado de sexismo

O cineasta tunisiano Abdellatif Kechiche voltou a gerar polêmica no Festival de Cannes, seis anos após as cenas quentes de sexo lésbico de "Azul É a Cor Mais Quente"(2013), quando ganhou o prêmio máximo do evento.

Em "Mektoub, My Love: Intermezzo", na disputa pela Palma de Ouro, o diretor mostrou uma longa cena, de aproximadamente 15 minutos, em que um homem faz sexo oral em uma mulher, em um banheiro de boate. Na cena, vê-se nitidamente o órgão sexual feminino e as nádegas da atriz, às vezes em close, mas o corpo masculino fica sempre em segundo plano. No total, o casal faz sexo oral quatro vezes seguidas, com direito a orgasmo feminino em todas.

O filme gerou choque em parte dos espectadores, pela crueza e pelo excesso de duração da cena. Mas também houve quem torcesse o nariz à duração total do filme: três horas e meia (uma versão anterior tinha quatro horas, mas foi editada por Kechiche antes de chegar a Cannes). Na sessão para a imprensa de ontem à noite, um número considerável de jornalistas deixou a sala antes do fim.

"Não respondo sobre a duração: quis fazer um filme bastante livre, apenas", disse o diretor, em conversa com a imprensa.

Embora tenha sido aplaudido ao final, o filme também recebeu algumas críticas, sobretudo de mulheres, que consideraram a obra sexista pela objetificação do corpo feminino - o longa se detém grande parte do tempo sobre corpos femininos, com uma visão algo fetichizada, enquanto o masculino aparece bem menos. Crítica parecida já havia sido feita ao filme anterior de Kechiche, "Mektoub, My Love: Canto Uno" (2017), exibido há dois anos no Festival de Veneza.

"A partir do momento em que temos uma experiência [diferente], nem todos estão abertos e sensíveis a esse olhar novo. Isso não me incomoda. Seria desastroso se todos vissem as mesmas coisas [que filmo] da mesma maneira que eu vejo", disse Kechiche.

Segundo o diretor, os corpos que mostra têm um apelo metafísico. "Quis mostrar o que me faz vibrar, os corpos, ventres, capazes de me levar a outros estados."

Segunda parte de uma trilogia sobre amores de juventude, "Mektoub" tem um trama bem simples e pouquíssima ação: basicamente mostra um grupo de jovens em um balneário francês, em constante flerte. Há duas partes: uma na praia, quando dois rapazes se aproximam de uma moça e a apresentam a seu grupo, em cena que ressalta corpos seminus de mulheres, após um banho de mar. A outra é em uma danceteria, onde o tempo todo os homens dão em cima das mulheres - mais uma vez, a câmera de Kechiche paira sobretudo sobre as curvas femininas, em danças sensualizadas, com shorts minúsculos e cabelos molhados de suor.

O filme, embora claramente objetifique a mulher, também mostra seus corpos como livres, donos de si e desejosos de prazer. A dicotomia entre o enfoque machista, mas ao mesmo tempo reconhecedor da emancipação feminina sobre o próprio desejo, o tornam um dos longas mais complexos e comentados desta edição do festival. O vencedor da Palma de Ouro será conhecido amanhã.

Atriz deixou projeção

Ontem, a atriz que protagoniza a cena de sexo oral, Ophélie Bau, deixou a projeção de gala do filme,.Hoje, na sessão de fotos e na entrevista coletiva de imprensa da equipe, ela também não esteve presente.

No final da sessão, Kechiche saiu literalmente correndo da sala, embora primeiro tenha pego o microfone para dizer: "Peço desculpas por manter vocês aqui sem adverti-los e agora vou embora!".

"É a minha educação. Peço desculpas por manter as pessoas na sala e de atrair a atenção para mim", argumentou o diretor nesta sexta.
O 'desastre' de Cannes

Em Cannes, a crítica não demorou a reagir ao filme que se tornou o mais polêmico de La Croisette.

O "desastre" de Cannes, escreve Justin Chang, crítico do "Los Angeles Times", que se pergunta se o Festival de Cannes está "trolando" os espectadores, ao incluir esta produção na competição oficial, onde concorrem grandes figuras da Sétima Arte, como o britânico Ken Loach, o americano Terrence Malick, ou o espanhol Pedro Almodóvar.

O crítico do jornal espanhol "El País", Carlos Boyero, admirador de "Azul é a cor mais quente", vai além em sua reação: "Que tipo de substâncias o diretor ingeriu e como afetaram seu cérebro para cometer tamanha e infinita estupidez?".

Outros apreciaram o filme, como o crítico francês Philippe Rouyer, que considerou que Kechiche "radicaliza seu método para nos fazer compartilhar uma noite louca de desejos em uma discoteca. Parabéns a todos os intérpretes que se entregaram totalmente para recriar este transe magistralmente filmado".

A forma de filmar os corpos femininos de Kechiche também incendiou as redes sociais.

"Para você público, contei todos os planos que mostram bundas no #MektoubMyLoveIntermezzo: há 178. Se tirarmos isso, acho que o filme dura 20 minutos", tuitou a jornalista Anaïs Bordages.

Não é a primeira vez que Kechiche causa polêmica. As atrizes principais de "Azul é a cor mais quente", Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, denunciaram duras condições de filmagem, pouco depois de ganharem a Palma de Ouro em 2013.

Outro escândalo persegue o cineasta. Uma mulher de 29 anos o denunciou por agressão sexual no ano passado. No início de maio, uma fonte ligada ao caso afirmou que a investigação segue seu curso. Questionado hoje sobre o assunto, Kechiche considerou a pergunta "perversa" e garantiu ter a "consciência tranquila no que diz respeito às leis".

*Com informações da agência AFP


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